Por onde terminar?
E pelo direito de desistir no meio do caminho. Parte 1
Aproveitando essa onda nostálgica de mostrar o rosto, ou de lembrar o que você estava fazendo 10 anos atrás, resolvi revisitar minhas primeiras HQs publicadas. E meus traumas também, já que nunca consegui finalizá-las.
Considere este texto um incentivo para quem está começando ou um alerta, se preferir. Mas antes, fique com este grande conselho que sempre levo pra vida:
Para não estender muito a “lenga-lenga”, dividi o conteúdo em duas partes. E, como vou contar ao longo desta edição, nem sempre consigo terminar o que começo... então fica o mistério se haverá uma parte 2.
Brincadeira! Para garantir, estou escrevendo as duas partes de uma vez: publico uma agora e a outra em breve. E aqui já vai a primeira dica:
Planejamento é tudo!
Mas não vai te salvar. Planeje-se para desistir também antes mesmo de começar.
Eu acompanho e estudo HQs desde o final dos anos 90. Sou leitor e entusiasta de quadrinhos desde sempre e, ao longo dos anos, colecionei muita coisa. Nos anos 2000, eu fazia uns desenhos, publicava aqui e ali na internet e pegava freelas esporádicos, enquanto mantinha meu trabalho como designer gráfico em primeiro plano para pagar os boletos. Mas só por volta de 2016 tive coragem de “botar a cara no mundo”.
Primeiro, comecei a produzir e publicar minhas histórias no formato de webcomics. Era a forma mais acessível; eu fazia no tempo livre e sem muito compromisso. Era divertido e eu estava empolgado em finalmente desenhar algo sem ninguém me dizendo o que fazer.
Nesse período, incentivado pelo boom das publicações independentes e eventos como CCXP e FIQ, achei que poderia dar um passo maior. Decidi publicar aquelas histórias e possivelmente depois levar às feiras no formato impresso de alguma maneira. Muita gente estava usando o financiamento coletivo e parecia um caminho promissor. E foi assim que tudo começou.
O primeiro título que publiquei foi o Carudo. Uma história ambientada em um futuro distópico, protagonizada por uma menina mecânica e um monte de robôs lutando para sobreviver, jogando videogame e falando bobeira enquanto o mundo se desfazia em ferrugem e lixo.



A razão do título seria revelada mais para frente: eles encontrariam um gigante vermelho, recém-libertado de sua prisão por um "pum atômico". Ele se juntaria à turma e, aos poucos, descobririam que o gigante era, na verdade, um dos responsáveis por toda aquela devastação. Eles o chamariam de o "Carudo".
Leia aqui o que foi publicado, por sua conta e risco.
Mas nada disso teve fim. Até comecei a segunda parte, mas parei. Por quê?
Basicamente, perdi o interesse. Entrei em outro ciclo, outras coisas surgiram no meu radar e, mesmo que eu já tivesse tudo planejado, linha do tempo, personagens, conflitos e resoluções, em um certo momento, achei tudo aquilo um saco e quis parar.
E OK.
O exercício de criar esse universo e essa história me bastou. Eu estava feliz e me diverti no processo; deu preguiça de terminar e só. Como a história já estava pronta na minha cabeça, para mim, ela já tinha acabado. Eu não via muito futuro pro que eu tinha começado e resolvi parar antes de gastar mais tempo com aquilo.
Mas muita gente não achou “OK”. Quem acompanhava queria um fim, queria saber mais, queria comprometimento. Eu entendo e me culpei por muito tempo por ter publicado algo incompleto, mas vida que segue.
Naquela época, outros projetos surgiram, meu trabalho “normal” continuou e comecei a pegar um volume maior de freelas de ilustração e livros infantis. Enterrei o Carudo de vez.
Recentemente, recriei os dois personagens principais com meu traço atual só para matar a saudade. Eis o Robô 007 e a menina Chefa, em um estudo do que eu talvez faria hoje:
Desistir, naquele momento, não significava que eu queria parar com os quadrinhos. Pelo contrário: eu queria continuar contando histórias, mas meu interesse mudou. Resolvi dedicar tempo a outro projeto que, na minha cabeça, poderia até fazer parte desse mesmo universo no futuro e tinha muito mais potencial. Chamei essa nova empreitada de: Amahoy.
Mas essa eu deixo para a próxima edição, pois esse é mais polêmico.
Fiquem com os esboços e alguns estudos que fiz na época:
Vale ressaltar que quase tudo foi feito exclusivamente em vetor, usando o Adobe Illustrator (que uso até hoje em alguns projetos).
E o eterno "em breve" na capa do que seria o segundo capítulo.
E que lição eu tiro disso? Não sei exatamente, mas foi um grande aprendizado de que assim como posso parar de ler um livro ruim e desistir dele quando eu quiser, também posso dar lugar pra outras histórias serem contadas a qualquer momento e tudo bem.
Mas pense melhor antes de publicar algo que não consiga terminar, as pessoas não levam isso muito numa boa e muitas vão puxar o seu pé pela eternidade.
Vocês repararam que mudei um pouco a dinâmica das postagens desta news/blog/rede social (como vocês chamam as postagens do Substack? Já vi de várias maneiras).
Agora, publico as tirinhas da minha série “Sai dessa, Gildo” primeiro por aqui e, depois, nas minhas outras redes (Instagram e Bluesky). Pode ser?
Tenho pensado em um formato de assinatura para essas tirinhas e em uma nova edição do livro pra esse ano compilando mais dois anos de publicações, mas nada fechado ainda. Vou compartilhando os planos com vocês quando decidir, mas por enquanto sigo assim.
Obrigado por chegar até aqui e nos vemos na próxima.
Abraço a todos!
E o recado de sempre é:
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Fazendo alusão ao que o Criolo disse uma vez em uma de suas músicas "Saber a hora de parar é pra uma pessoa sábia", há coisas que beneficiam mais a nossa saúde mental e sanidade quando deixamos para trás, e não carregamos mais coisas que já não fazem mais sentido pra gente.
Quero tentar essa empreita de fazer uma história longa em quadrinhos também, mas justamente pensando em coisas mais compactadas e histórias mais fechadinhas, porque eu tenho essa facilidade de enjoar fácil daquilo que eu crio, e quero sempre partir para uma nova ideia.
E adorei a webcomic da Nuvenzinha. Super fofo a historinha!
acho que desistir no meio do caminho é um direito fundamental do criador. assim como ficar chateado porque o autor desistiu no meio também é um direito fundamental do leitor. hahaha